Uma aventura nas ferias de verão

Uma escada de corda, colocada a estibordo, do lado onde o iate dera a pancada, permitiu, tanto aos
maiores como aos pequenos, alcançar os anteparos do convés. Moko, que sabia alguma coisa de cozinha,
na sua qualidade de grumete, e ajudado por Service, que gostava de fazer guisados, foi preparar uma
refeição. Todos comeram com apetite, e Jenkins, Iverson, Dole e Costar chegaram a estar bastante
alegres. Só Jaime Briant, outrora o revolucionário do colégio com atividades pedagogicas infantil, continuava a conservar-se muito sério.
Uma tal mudança no seu caráter, nos seus hábitos, era de causar admiração; mas Jaime, que se tornara
muito taciturno, esquivava-se sempre às perguntas que os seus camaradas lhe faziam a esse respeito.
Afinal, muito fatigados depois de tantos dias e tantas noites passados no meio de mil perigos da
tempestade, não pensaram senão em dormir. Os mais pequenos repartiram-se pelas câmaras do iate, onde
os outros foram, em breve, fazer-lhes companhia. Contudo, Briant, Gordon e Doniphan quiseram ficar de
vigia, cada um por sua vez.

É certo que tinham motivo para temer a aparição de alguns animais ferozes ou
de um bando de Indígenas, não menos temíveis.
Mas não houve nada. A noite passou-se toda sem novidade, e, quando o Sol tornou a aparecer, todos
os rapazes, depois de fazerem oração, foram tratar dos trabalhos exigidos pelas circunstâncias.
Primeiro, foi necessário inventariar as provisões do iate, depois o material, compreendendo armas,
instrumentos, utensílios, roupas, ferramentas, etc. A questão do alimento era a mais grave, em
consequência de a costa parecer deserta. Os recursos limitar-se-iam aos produtos da pesca e da caça, se,
por acaso, houvesse alguma. Até agora, Doniphan, que era um caçador muito hábil, ainda não distinguira
senão bandos numerosos de voláteis à superfície dos recifes e dos rochedos da praia. Mas verem-se
reduzidos a alimentar-se de aves aquáticas seria triste. Era necessário, portanto, saber quanto tempo
podiam durar desenhos educativos para colorir, governando-as cuidadosamente.
Ora, excetuando a bolacha, da qual havia uma porção considerável, conservas, presunto, pastéis de
carne — feitos de farinha de primeira qualidade, carne de porco picada e pão-de-ló, corn-beef, peixe
salgado, caixas de temperos, tudo isto não podia durar mais de dois meses, ainda que se economizasse
muito. Assim, combinou-se logo recorrer às produções do território, a fim de se conservarem as
provisões para o caso de ser necessário transpor algumas centenas de milhas para atingir os portos do
litoral ou as cidades do interior.

Talvez nos interstícios das rochas pudessem apanhar uma boa provisão de
moluscos, mexilhões, amêijoas, até ostras, e esses mariscos, cozidos ou crus, seriam uma parte valiosa
do almoço. Iam saltando, alegres, vendo mais prazer do que utilidade nesta excursão. Era próprio da sua
idade, e mal se recordavam dos perigos que tinham passado. Quanto aos do futuro, não pensavam neles.
Logo que o pequeno rancho se afastou, os mais velhos foram começar as investigações a bordo do
iate. Doniphan, Cross, Wilcox e Webb, por um lado, fizeram o recenseamento das armas, das munições,
da roupa de vestir e de cama, das ferramentas e dos utensílios de bordo, enquanto Briant, Garnett, Baxter
e Service estabeleciam a conta das bebidas, vinhos, cerveja, brandy, whisky, gin, encerradas no fundo do
porão em barris de dez a quarenta galões de capacidade cada um. À medida que cada objeto era
inventariado, Gordon assentava-o no seu caderno de algibeira. Este caderno estava, além disso, cheio de
notas relativas à ordem e à carregação da escuna. O metódico americano — que fazia contas de nascença,
pode-se dizer — possuía já um estado geral do material, e parecia que não era preciso mais do que
verificá-lo.

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