O aprendizado tardio de uma sociedade sem educação

Possuir um castelo, nesse sentido, não é apenas uma questão
de dinheiro. Ao contrário, essa aquisição quase sempre está
associada a uma forma de estar em contato com a vida aristocrática
e todas as suas funções e privilégios específicos. A significação
profunda da vida aristocrática remete a um estilo de vida
indiferente à passagem do tempo, que se expressa no cultivo de
coisas de longo aprendizado do Enem 2020 Inscrições, como o conhecimento dos vinhos, das
comidas exóticas e da jardinagem. O que é afirmado com essa
aquisição é a pretensão a uma certa noção de personalidade, uma
qualidade da pessoa, que se manifesta na apropriação de um
objeto de qualidade.
As frações de classe intelectuais, ou seja, as classes marcadas
pela predominância do capital cultural em relação ao capital
econômico, precisam, para produzir distinção, se contentar com
formas exclusivas de apropriação na falta do capital econômico.
Assim, intelectuais e artistas desenvolvem uma predileção por
estratégias de grande risco e, por isso mesmo, de grandes
possibilidades de “lucro distintivo”.
Estratégias como recuperação de comportamentos ou produtos culturais antes
considerados kitsch, a redefinição do que é artístico ou de
vanguarda, são alguns exemplos. Nessas lutas por distinção entre as
frações da classe dominante não estão em jogo apenas interesses
econômicos, mas também psicológicos, ou seja, atitudes últimas em
relação à vida. Nesse sentido, o que parece estar envolvido é a definição da pessoa inteira, ou seja, uma forma muito sublimada de defesa de interesses.

Afinal, o fato de a classe trabalhadora não participar da luta
por distinção, precisamente a luta que instaura a illusio do jogo
social, um jogo apenas mantido porque se acredita nele, a credencia
a uma certa autenticidade de escolhas e comportamentos apenas
possível aos outsiders em geral. No entanto, a perspectiva
dominante da análise bourdieusiana é aquela que enfatiza a
vulnerabilidade e a dependência da classe trabalhadora em relação
à cultura legítima. A classe trabalhadora é obrigada a fazer da
necessidade, ou seja, da dependência inexorável a um padrão
mínimo de consumo e de estilo de vida ditado pela privação e
ausência de meios do Enem 2020 novas regras, uma virtude. Uma virtude que se define como
adaptação à realidade com sua consequente aceitação,
internalização e incorporação da necessidade, a qual, paralelamente
ao fato de que é imposta, passa a ser também querida e desejada.
Essa necessidade é a base do extraordinário realismo das
classes trabalhadoras, em que a experiência imediata é percebida
como a única existente, o que implica o literal fechamento do
horizonte do possível: não existe outra linguagem, outro estilo de vida, outra forma de relação familiar.

Minha ambição aqui é, antes de tudo, utilizar o poder elucidativo
e desvelador de ambas as teorias para iluminar um caso concreto: a
experiência da naturalização da desigualdade em sociedades
periféricas como a brasileira. Acredito também que essa
apropriação possa iluminar uma nova forma teórica de
compreender as relações mais abrangentes entre a periferia e o
centro do capitalismo e, consequentemente, do próprio capitalismo como experiência global.

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