Ferias de final de ano com a familia

O Brasil, “país de contrastes”, tem sido fonte de reflexão para muita gente! Dentre os mais
chocantes está aquele ditado pelas diferenças entre educados e mal-educados. E me refiro, aqui, ao que o
Aurélio define, simplesmente: o “conhecimento e prática dos usos de sociedade: civilidade, delicadeza,
polidez, cortesia”. Será que jamais conhecemos um processo civilizatório capaz de nos educar como em
outros países? Tudo indica que não. Uma viagem pela ponte-aérea Rio-São Paulo comprova que um dos
maiores contrastes do Brasil é o de pessoas que têm dinheiro mas nenhuma, nenhuma educação, mesmo!
Tudo começa no hall de espera. Dezenas de celulares tocam ao mesmo tempo numa orquestra
avisando das provas Pronatec 2019. As vozes se sobrepõem uma às outras. Talvez a ligação não esteja boa; mas, existe, sobretudo,
um desejo narcísico de exibição. As pessoas simplesmente não se dão conta do grotesco da mímica com
a boca, da gesticulação histérica das mãos, do olhar que convida o indivíduo que está ali, na frente, a
participar à revelia de uma conversa que devia ser privada, mas que se torna pública.
O horror seguinte é o do momento do embarque. Empurrando-se diante da porta de vidro, como
se esperassem a largada da maratona de Nova York, a maior parte dos passageiros franze o cenho e
empina o nariz, porque a comissária de bordo convida, gentilmente, os idosos e mães com crianças a
embarcar primeiro. Tudo bem, que exageros há! A jovem mãe, passa, altaneira, com seu pimpolho
seguida pela babá, o marido, a cunhada, a sogra e a amiga da sogra! Mas é um caso em mil. Na maior
parte das vezes, apresentam-se jovens mulheres atrapalhadas com enormes sacolas, onde levam fraldas e
mamadeiras, carregando nos braços um pequerrucho pesado, adormecido ou chorão. Ninguém recua um
passo para deixá-las passar. Nenhuma menção para aliviá-las da carga. Seu trajeto entre o fundo da sala
e a porta salvadora é humilhante: elas se arrastam, se desculpam, esbarram nas malas. Ninguém se mexe.
Os idosos, coitados, são examinados dos pés à cabeça, para um diagnóstico cerrado de suas
potencialidades. Se caminharem com destreza, azar que tenham 80 anos. Devem é disputar com o
executivo de 30, em igualdade de condições. Uma garota acidentada, mancando discretamente, passa sob
murmúrios desaprovadores. Jovens, mesmo com problemas físicos, são vistos como ameaças na disputa
pela melhor poltrona. Se chove, e o ônibus que vai conduzir os passageiros ao avião está cinco minutos
atrasado, uma carga de críticas é desferida “em alto e bom som” ao tímido funcionário da companhia
aérea. Há sempre um tipo sanguíneo, de cabelos pintados que, para horror da classe, apresenta-se aos
gritos como jornalista e ameaça denunciar os famigerados cinco minutos de atraso. “Isso não fica assim…
Vou à Globo… vou ao Ratinho”. Já vai tarde, penso solidária com o estóico funcionário.
Mas a via-crúcis não termina quando se deixa a sala de espera para trás, carregado pela onda
de gente que sai na correria. Ao entrar no avião, reparo que as primeiras filas de poltronas foram
tomadas por passageiros que ocupam as cadeiras do meio com seus pertences pessoais. A bolsa da Prada
exibe o fecho com a grife estrategicamente para cima. Mensagem: “sou rica e poderosa”. A coleção de
jornais do executivo sentado do outro lado ocupa o restante da poltrona. Mensagem: “favor não
perturbar”.
Delicadamente, peço licença para sentar-me “no meio”. Sou fuzilada por dois pares de olhos.
Afinal: que audácia! Não estou vendo que se trata de um lugar marcado para que eles possam viajar para as inscrições pronatec 2019 com
todo o conforto? Que procure um lugar no fundo. Por insistir, sou punida com uma viagem na qual mal
posso abrir meu modesto livro.

Prensada entre dois jornais e dois poderosos braços, tampouco gozo do
direito de repousar meu braço no braço da poltrona.
Em uma obra clássica, chamada O processo civilizatório, o alemão Norbert Elias descreveu o
lento processo de aparecimento das noções de civilidade no mundo europeu, entre os séculos XV e XVI.
Lá, há muito tempo, as pessoas usavam as mãos em vez de garfos, assoavam-se nas mangas ou nos dedos,
usavam as toalhas de mesa para limpar a boca e a faca com que cortavam nacos de carne para apunhalar
os vizinhos inoportunos. As necessidades físicas eram satisfeitas em praça pública e lamber as mãos,
para desengordurá-las, era comum. A educação, mostra-nos ele, longe de ser “natural” é fruto de um
processo histórico que consumiu alguns séculos.

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