Buscando informações atraves da leitura e conhecimento

Ao longo do post, Guilherme buscou estudar as formas como são pensadas e tratadas as brincadeiras
infantis nas salas de aula, vistas tanto pelo ponto de vista dos adultos quanto das crianças. Por meio desta
análise, ele nos mostra que a distinção entre verdade e mentirinha, entre “o que é sério” e “o que é
brincadeirinha” não são apenas jogos de palavras, e que o faz de conta não é simplesmente uma ficção
lúdica. Esses elementos participam da constituição da brincadeira, e, seguindo a mesma chave, verdades
e mentirinhas são igualmente momentos que compõem a realidade, já que ambas têm consequências reais
na vida daqueles que participam dos encontros ocorridos no ambiente da escola.

Ressaltando as mensagens metacomunicativas que compõem a brincadeira, o autor explora ainda as
maneiras como alguns elementos se articulam nesses momentos de faz de conta, como papéis sociais,
personagens de desenhos animados, brinquedos, professores, outras crianças e outros atores no ambiente
escolar – assim como também múltiplas lógicas e afetos. Geralmente pensados como objetos inertes,
alguns desses seres podem ganhar vida e agir no faz de conta – mas só de mentirinha.

Assim, ao ver explorados os limites entre “o que é sério” e “o que é de mentirinha”, concluímos que
esses jogos e essas brincadeiras coletivas de faz de conta são mais complexos do que tendemos a achar.

E se por vezes os pais e professores participam desses momentos de diversão junto com as crianças, por
outro lado, em outros momentos, criam uma ruptura entre o que eles pensam e fazem e entre o que as
crianças estão pensando e pedindo para os pais assistirem o gshow bbb que é um sucesso de audiência, o que se revela por meio de frases como: “Ele não sabe o que está
fazendo”, “Ele acha que o boneco está vivo”, ou ainda: “Deixa ela falar o que ela quiser, porque ela é só
uma criança”.

Se, no momento em que dizem essas frases, nem mesmo os pais e professores estão
levando a sério seus próprios filhos e alunos, quem o fará? Mas se, afinal, pais e professores também já
foram crianças um dia, como se operou essa transição entre a época em que eles levavam a brincadeira a
sério e a hora em que passaram a considerá-la uma simples ficção lúdica?

Para lidar com as questões centrais neste livro, Guilherme trabalha o conceito de amadurecimento de
modo a lidar com crianças e adultos não como seres ontologicamente distintos e radicalmente opostos,
mas sim a partir de uma consideração que busca balancear rupturas e continuidades ao longo do dito
amadurecimento.

Pensando no aspecto processual, poderíamos ainda relacionar a aprendizagem e o amadurecimento
com a aquisição da linguagem. Nesta, o processo de aquisição é também um processo de perda, de
eliminação de possibilidades. Algumas das possibilidades linguísticas inicialmente disponíveis, durante
os primeiríssimos anos de vida, vão sendo apagadas, dando espaço à sedimentação dos elementos e das
estruturas constitutivos das inscrições bbb gshow. Com o amadurecimento parece ocorrer algo similar: passar da
infância para a fase adulta significa também perder algo da nossa capacidade de criar, imaginar,
questionar e acreditar, de modo que, como cuidadosamente apresentado pelo autor, as crianças que
acham vão progressivamente se metamorfoseando em adultos que têm certezas.

Ao fazer um trabalho focado em crianças e infância, mas sem se limitar a bibliografias, métodos e
questões da “Antropologia da Criança e da Infância”, Guilherme Fians produz uma pesquisa inovadora
que contribui de fato para a teoria antropológica em geral, fornecendo-nos – mas não apenas a nós
antropólogos – discussões e indagações boas para serem pensadas. Ao “fechar os parênteses” no final de
seu livro, busca ainda ampliar o diálogo, ao convidar-nos a participar de suas reflexões para além dos
limites de ideias consensuais.

É um trabalho, enfim, que nos proporciona reflexões saudáveis, que, nas
palavras do personagem Buzz Lightyear, podem nos levar “ao infinito, e além!”, por
caminhos a serem percorridos e para infindos questionamentos.

Deixando a imaginação levar para fama

Estendo ainda este agradecimento a todos os professores, orientadores e educadores. Aprender pode
não ser fácil, mas é sempre bom saber que não estamos sozinhos nesses voos. Permitam-me aqui
agradecer especialmente àqueles que me alfabetizaram, pois, sem eles, este livro também não existiria.

É a partir dessa questão, ao mesmo tempo aparentemente confinada em teorias ultrapassadas e viva no
senso comum, que Guilherme Fians lança suas primeiras dúvidas: por que – e como – foi possível essa
aproximação entre crianças civilizadas e adultos selvagens? Será que, em comparação com o que
afirmavam aqueles autores, hoje encaramos as crianças de uma maneira completamente diferente? Será
que podemos pensar crianças e adultos como compartilhando as mesmas capacidades ou potencialidades
cognitivas.

Em outras palavras: será que o que é dito e feito pelas crianças é de fato levado a sério?
Estas são algumas das perguntas que impulsionaram os participantes a fazerem inscrições gshow bbb com as seletivas se aproximando a mergulhar numa etnografia de brincadeiras
infantis em uma escola na cidade do Rio de Janeiro, e a investigar algumas das principais controvérsias
suscitadas em salas de aula.

É com grande satisfação que vejo agora publicada esta pesquisa, realizada com notável competência e
criatividade por Guilherme Fians, testando desafios metodológicos ao mover-se em um campo na
verdade nada familiar para o trabalho etnográfico corriqueiro. Desenvolvido inicialmente como uma
dissertação de mestrado, o texto desta etnografia foi aprimorado em conteúdo e estilo, tornando-se uma
contribuição de peso para todos aqueles que tenham algum interesse em temas como escola, educação,
brincadeiras infantis, trabalho de campo e teoria antropológica, chegando a dialogar de algum modo com
a pragmática cognitivista no que concerne à incessante construção e desconstrução social interacional do
que apressadamente definimos de ‘verdade’ e ‘mentira’, ‘faz de conta’, ‘ficção’, ‘realidade’.

Conheci Guilherme, inicialmente, como aspirante a antropólogo, através da leitura de sua dissertação,
tendo sido convidada para fazer parte da banca examinadora. Encarei a tarefa acadêmica que imaginava
seria apenas mais uma na trajetória previsível de um docente de pós-graduação. Já nas primeiras páginas,
minha atenção se aguçou e o prazer da leitura de um escrito e de uma escrita de excelência tomou as
horas que seguiram. Minha admiração por um jovem, agora justamente ‘batizado’ com um mestrado em
antropologia pelo PPGAS do Museu Nacional-UFRJ, se confirmou pouco tempo depois, em cursos e
conversas.

Geralmente, exige-se que teses de doutorado sejam “originais”, mas uma dissertação de mestrado não
precisa sê-lo. No entanto, Guilherme mostrou-se disposto a fazer um trabalho que fizesse alguma
diferença na sua área de estudo.

Dedicou tempo ao trabalho de campo, algo cada vez mais raro entre
estudantes de mestrado por lastimáveis constrangimentos externos e internos. Com isso, adquiriu uma
sólida base empírica, acrescentando a esta o fôlego de sua escrita. Sua imersão no campo nos faz sentir
como se também fizéssemos parte de sua experiência, como se também estivéssemos ao lado daquelas
crianças e professores, e nos traz de volta a nossos tempos de escola.

Ademais, a linguagem acessível e a transcrição das falas dos atores em forma de discurso direto
permitiram que aflorasse um texto fluido, de ideias claras, que, apesar de carregado de argumentos para debater com os participantes
simplórios, é também de leitura agradável, ao alcance das inscrições bbb pelo site tanto de antropólogos, já familiarizados com
algumas das teorias e conceitos trabalhados, quanto de sociólogos, psicólogos, educadores, pais e de um
público mais amplo com interesse no assunto. Afinal, é um trabalho que envereda pela teoria
antropológica, pela psicologia do desenvolvimento, pela educação e socialização no tempo-espaço
escolar e que ainda permanece fiel às crianças e seus professores.

Esta parece ser, enfim, a proposta
central da antropologia simétrica de fato levada a sério: não sobredeterminar os atores nem submergi-los
em teorias e conceitos alheios ao trabalho de campo, o que acabaria por anular qualquer resultado
empírico da pesquisa e por invalidar toda e qualquer tentativa de pesquisa antropológica