Ferias de final de ano com a familia

O Brasil, “país de contrastes”, tem sido fonte de reflexão para muita gente! Dentre os mais
chocantes está aquele ditado pelas diferenças entre educados e mal-educados. E me refiro, aqui, ao que o
Aurélio define, simplesmente: o “conhecimento e prática dos usos de sociedade: civilidade, delicadeza,
polidez, cortesia”. Será que jamais conhecemos um processo civilizatório capaz de nos educar como em
outros países? Tudo indica que não. Uma viagem pela ponte-aérea Rio-São Paulo comprova que um dos
maiores contrastes do Brasil é o de pessoas que têm dinheiro mas nenhuma, nenhuma educação, mesmo!
Tudo começa no hall de espera. Dezenas de celulares tocam ao mesmo tempo numa orquestra
avisando das provas Pronatec 2019. As vozes se sobrepõem uma às outras. Talvez a ligação não esteja boa; mas, existe, sobretudo,
um desejo narcísico de exibição. As pessoas simplesmente não se dão conta do grotesco da mímica com
a boca, da gesticulação histérica das mãos, do olhar que convida o indivíduo que está ali, na frente, a
participar à revelia de uma conversa que devia ser privada, mas que se torna pública.
O horror seguinte é o do momento do embarque. Empurrando-se diante da porta de vidro, como
se esperassem a largada da maratona de Nova York, a maior parte dos passageiros franze o cenho e
empina o nariz, porque a comissária de bordo convida, gentilmente, os idosos e mães com crianças a
embarcar primeiro. Tudo bem, que exageros há! A jovem mãe, passa, altaneira, com seu pimpolho
seguida pela babá, o marido, a cunhada, a sogra e a amiga da sogra! Mas é um caso em mil. Na maior
parte das vezes, apresentam-se jovens mulheres atrapalhadas com enormes sacolas, onde levam fraldas e
mamadeiras, carregando nos braços um pequerrucho pesado, adormecido ou chorão. Ninguém recua um
passo para deixá-las passar. Nenhuma menção para aliviá-las da carga. Seu trajeto entre o fundo da sala
e a porta salvadora é humilhante: elas se arrastam, se desculpam, esbarram nas malas. Ninguém se mexe.
Os idosos, coitados, são examinados dos pés à cabeça, para um diagnóstico cerrado de suas
potencialidades. Se caminharem com destreza, azar que tenham 80 anos. Devem é disputar com o
executivo de 30, em igualdade de condições. Uma garota acidentada, mancando discretamente, passa sob
murmúrios desaprovadores. Jovens, mesmo com problemas físicos, são vistos como ameaças na disputa
pela melhor poltrona. Se chove, e o ônibus que vai conduzir os passageiros ao avião está cinco minutos
atrasado, uma carga de críticas é desferida “em alto e bom som” ao tímido funcionário da companhia
aérea. Há sempre um tipo sanguíneo, de cabelos pintados que, para horror da classe, apresenta-se aos
gritos como jornalista e ameaça denunciar os famigerados cinco minutos de atraso. “Isso não fica assim…
Vou à Globo… vou ao Ratinho”. Já vai tarde, penso solidária com o estóico funcionário.
Mas a via-crúcis não termina quando se deixa a sala de espera para trás, carregado pela onda
de gente que sai na correria. Ao entrar no avião, reparo que as primeiras filas de poltronas foram
tomadas por passageiros que ocupam as cadeiras do meio com seus pertences pessoais. A bolsa da Prada
exibe o fecho com a grife estrategicamente para cima. Mensagem: “sou rica e poderosa”. A coleção de
jornais do executivo sentado do outro lado ocupa o restante da poltrona. Mensagem: “favor não
perturbar”.
Delicadamente, peço licença para sentar-me “no meio”. Sou fuzilada por dois pares de olhos.
Afinal: que audácia! Não estou vendo que se trata de um lugar marcado para que eles possam viajar para as inscrições pronatec 2019 com
todo o conforto? Que procure um lugar no fundo. Por insistir, sou punida com uma viagem na qual mal
posso abrir meu modesto livro.

Prensada entre dois jornais e dois poderosos braços, tampouco gozo do
direito de repousar meu braço no braço da poltrona.
Em uma obra clássica, chamada O processo civilizatório, o alemão Norbert Elias descreveu o
lento processo de aparecimento das noções de civilidade no mundo europeu, entre os séculos XV e XVI.
Lá, há muito tempo, as pessoas usavam as mãos em vez de garfos, assoavam-se nas mangas ou nos dedos,
usavam as toalhas de mesa para limpar a boca e a faca com que cortavam nacos de carne para apunhalar
os vizinhos inoportunos. As necessidades físicas eram satisfeitas em praça pública e lamber as mãos,
para desengordurá-las, era comum. A educação, mostra-nos ele, longe de ser “natural” é fruto de um
processo histórico que consumiu alguns séculos.

Casamento feliz vivendo motivado com a familia

Casamento, hoje? “Até que a vida os separe”, responde o psicanalista. As estatísticas não o
deixam mentir. Desde a década de 1980, os números de casamentos vêm declinando e o de divórcios,
aumentando. Quem contabiliza é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Golpes e mais
golpes fustigam a família que, menos sensível às sanções religiosas, menos atenta às tradições para nova tabela INSS 2019, já é
chamada por cientistas sociais, na Europa, de “família pós-familial”. Segundo estudiosos, ela só continua
a existir na imaginação ou na memória.
A culpa? É do casamento que não resistiu às mudanças. A revolução tecnológica permitiu a
emancipação econômica dos indivíduos, desobrigando-os da vida familiar, até recentemente uma
proteção contra as ameaças do mundo lá fora. A Amélia — que se encarregava de lavar e passar para o
marido — foi substituída pelo micro-ondas. A pílula e a emancipação da mulher alteraram
definitivamente as relações dentro da família. Como se não bastasse, envolvimentos extraconjugais
fascinam uns e outros, enquanto cresce na sociedade industrializada o número de pessoas que querem
viver sozinhas. A autofelicidade vem na frente dos cuidados entre os cônjuges e daqueles com os
membros da família. Hoje, sou “eu”, depois o “tu” e, bem mais longe, “eles”. Enfim, a modernidade
parece querer dispensar o casamento e a família de sua função histórica básica com o INSS tabela 2019 garantir nossa
sobrevivência.
Se posso acrescentar uma modesta ideia à lista concebida por especialistas do mundo todo,
diria que o casamento está morrendo porque as pessoas veem televisão demais e conversam de menos.

Essa “arte de ser feliz junto”, como já disse um filósofo sobre a conversação, vem sendo ameaçada pelo
lixo que a telinha joga para dentro de nossas casas à noite. Todos sabemos que o prazer é coisa
misteriosa e que aquele que extraímos de uma boa conversa se deve a bem pouca coisa: um clima de
conivência, certa confissão inesperada, um sorriso velado entre uma e outra frase. Parece pouco, mas é
muito. Que maravilha deixar-se levar pela vagabundagem da palavra, saindo de si e se aventurando na
terra do outro, pondo um fim à discussão com um beijo. E o que dizer da conversa que fica em segundo
plano, feita de tudo o que não ousamos dizer, de nossos medos, de nossas crenças e esperanças. A
conversação não deve ser só ócio e abandono, mas uma porta para a verdade, a felicidade, a amizade e a
sociabilidade. Um espaço de ironia e seriedade, riso e gravidade, cólera e medida, Não aquilo em que se
transformou: algo de útil e eficaz. Uma boa conversa permite aproximação, incentiva compromisso,
encontra um vocabulário comum. Nela, haverá sempre um tempo para falar e outro para escutar. Afinal,
conversar é também saber calar. Pois não se trata de ter a última palavra, mas de construir junto essa
coisa preciosa e cada vez mais rara: o momento compartilhado, Enfim sós”? Sim e, de preferência, para conversar.

Consumismo da sociedade trabalhadora nos dias atuais

Um anúncio na televisão dentro da banheira cheia de pétalas, a atriz sorri. O colo nu desponta
na água como uma haste, Da haste, pendem dois globos. Sólidos, opacos. Exatamente como os que são
vendidos nas lojas as novidades de motos 2019, Anúncio de lâmpadas? Não. De creme hidratante. A atriz acaba de
fazer sua enésima cirurgia plástica. Trocou o tamanho dos seios como a média das mortais troca de
penteado. Na sua esteira, as plásticas de mama, triplicaram. Tantas querem ter os seios da atriz e,
consequentemente, sorrir como ela e ser feliz como ela será ao fim da novela! Como dizem os
antropólogos: o assunto é bom para pensar…
Na mídia dos anos 1960, as imagens que enterneciam eram bem outras. A mãe com o filho ao
seio, por exemplo. A promoção de novas motos Honda 2019 do era constante, enquanto descobertas na área de
saúde pública, psicologia e dietética infantil incentivavam o mais saudável e amoroso dos hábitos.
Curiosamente, o feminismo e o naturismo do movimento hippie colaboravam para cristalizar as
manifestações públicas de uma reivindicação que consagrava tanto a liberdade das mulheres em expor
seus seios quanto as necessidades sensuais e afetivas dos recém-nascidos. A linguagem progressista
coabitava com o mais tradicional dos papéis femininos: ser mãe. Contestação e tradição se davam as
mãos. O movimento de liberação sexual remodelava a consciência de feminilidade e da maternidade.
Esta era vivida com orgulho. Portava-se a barriga como um emblema.

Leila Diniz despiu a sua e a exibiu,
vaidosa, aos fotógrafos e ao sol de Ipanema. Todo o corpo feminino mostrava-se ativo, manifestando um
extraordinário poder.
O que mudou? Nos anos 1970, desembarcam no Brasil as primeiras bonecas Barbie,
possuidoras de seios de globo. Chegavam também numerosas máquinas e técnicas do corpo, instrumentos
de um verdadeiro marketing de vivências corporais: o body business. Na sociedade de abundância
industrial, o corpo tinha uma nova tarefa: ser consumidor. E pior, consumidor em cada uma das suas
partes individualizadas. Para as unhas, esmaltes; para os cabelos, xampus; para o corpo, sabonetes e
cremes; para o resto, academias de ginástica, aparelhos comprados pelo shop time, cirurgia plástica em
dez prestações facilitadas, tudo prometendo beleza para todas!
É incrível como esse modelo deixou o outro para trás. O narcisismo, a preocupação com a
manutenção e a apresentação do corpo desenham, hoje, o que estudiosos chamam de “uma nova
naturalidade corporal”. Não é mais o conjunto do corpo feminino que emana poder, mas cada parte dele.
Os seios globulosos, por exemplo, ou tudo aquilo que se pode “malhar” individualmente nas academias
com aparelhos que desconectam as diferentes partes: nádegas, panturrilhas, coxas. Essa partição, ao
contrário de exaltar o sensualismo ou o contato com a natureza, como ocorria nos anos 1960, levou a uma
aproximação mórbida com o organismo. O que não está bom é descartado, trocado, substituído como
peça velha e sem uso. É bom começar a pensar o quanto ganharemos nesse jogo, enquanto substituímos o
seio nutriz, signo da relação fusional entre mãe e filho, o real papel de doadoras, por aquele artificial,
substituível e virtual do globo da novela.

Saindo para um passeio com a familia

Em compensação, era grande a abundância de pombos de rocha, de gansos e de patos, cuja carne foi
muito apreciada. Estes gansos eram de uma espécie particular, e, pela direção que tomavam quando as
detonações os faziam voar rapidamente, era de crer que habitassem o interior do país.
Doniphan matou também alguns desses ostreiros que vivem geralmente de moluscos, de que são muito
gulosos, tais como lapas, mexilhões, etc. Enfim, havia por onde escolher; mas essa caça exigia quase
sempre uma certa preparação a fim de perder o sabor oleoso, e, apesar da sua boa vontade de ver carros 2019 fotos, Moko nem
sempre se saía dessa dificuldade com satisfação geral.

Contudo, não se podia ser exigente, segundo
repetia muitas vezes o previdente Gordon, e era preciso economizar as conservas do iate, gastando à
vontade a bolacha, da qual havia uma provisão abundante.
Todos esperavam com impaciência que se fizesse a ascensão do cabo — ascensão que resolveria,
talvez, a importante questão de ilha ou continente. Dessa questão dependia o futuro, e, por consequência,
a instalação provisória ou definitiva naquela terra.
No dia 15 de março, o tempo pareceu tornar-se favorável à realização deste projeto. O céu libertarase,
durante a noite, dos espessos vapores que a calma dos dias precedentes tinha acumulado. O vento de
terra tinha-os dissipado em algumas horas. Alguns raios de sol douraram a crista dos rochedos.

Podia-se esperar que, à tarde, quando fosse iluminado obliquamente, o horizonte de leste aparecesse com a
limpidez suficiente, e era esse horizonte que se tratava de observar. Se uma linha de água contínua se
estendesse para esse lado, a terra era uma ilha, e não se podiam esperar socorros senão de algum navio
que aparecesse naquelas paragens.
Como já se disse, a ideia da excursão ao norte da baía partira de Briant, e este tinha resolvido
empreendê-la só. É certo que não lhe desagradava ir na companhia de Gordon. Mas abandonar os seus
camaradas, sem deixar este junto deles para os vigiar, num dos modelos de carros RENAULT 2019.
No dia 16, à noite, depois de se ter certificado de que o barómetro marcava bom tempo fixo, Briant
preveniu Gordon de que partiria no dia seguinte, ao alvorecer.
Transpor uma distância de dez a onze milhas — compreendendo ida e volta — não era coisa que
embaraçasse um rapaz vigoroso, que não olhava a fadigas. O dia inteiro bastar-lhe-ia, com certeza, para
dar conta da sua exploração e Gordon podia esperar o seu regresso antes da noite.
No dia seguinte, de madrugada, Briant partiu, sem ter comunicado aos outros a sua resolução. Levava
apenas um cajado e um revólver, para o caso de encontrar algum animal feroz, posto que os caçadores
não tivessem achado vestígios deles nas suas excursões precedentes.
A estas armas defensivas juntara Briant um instrumento que devia facilitar-lhe o trabalho quando
estivesse na ponta do promontório. Era um dos óculos do Sloughi — óculo de grande alcance e de uma
clareza notável. Num saquinho preso à cintura, levava bolacha, um bocado de carne salgada, uma cabaça
com algumas gotas de brandy, enfim, o suficiente para um almoço e, em caso de necessidade, para um
jantar, se algum Incidente retardasse o seu regresso à escuna.
Briant, caminhando a passos largos, seguiu primeiro o contorno da costa, cercado, no limite interior
dos recifes, por longo cordão de limos, ainda húmidos das águas do mar. Depois de curta marcha, tinha
passado o ponto extremo atingido por Doniphan e pelos seus companheiros, quando iam caçar os pombos
da rocha. Estes voláteis não tinham nada a recear de Briant naquele momento. Ele não queria perder
tempo, a fim de chegar o mais depressa possível ao cabo. O tempo estava claro, o céu inteiramente limpo
de nevoeiro, era necessário aproveitar. Se, para a tarde, os vapores se acumulassem para os lados de
leste, o resultado da exploração seria nulo.

Uma aventura nas ferias de verão

Uma escada de corda, colocada a estibordo, do lado onde o iate dera a pancada, permitiu, tanto aos
maiores como aos pequenos, alcançar os anteparos do convés. Moko, que sabia alguma coisa de cozinha,
na sua qualidade de grumete, e ajudado por Service, que gostava de fazer guisados, foi preparar uma
refeição. Todos comeram com apetite, e Jenkins, Iverson, Dole e Costar chegaram a estar bastante
alegres. Só Jaime Briant, outrora o revolucionário do colégio com atividades pedagogicas infantil, continuava a conservar-se muito sério.
Uma tal mudança no seu caráter, nos seus hábitos, era de causar admiração; mas Jaime, que se tornara
muito taciturno, esquivava-se sempre às perguntas que os seus camaradas lhe faziam a esse respeito.
Afinal, muito fatigados depois de tantos dias e tantas noites passados no meio de mil perigos da
tempestade, não pensaram senão em dormir. Os mais pequenos repartiram-se pelas câmaras do iate, onde
os outros foram, em breve, fazer-lhes companhia. Contudo, Briant, Gordon e Doniphan quiseram ficar de
vigia, cada um por sua vez.

É certo que tinham motivo para temer a aparição de alguns animais ferozes ou
de um bando de Indígenas, não menos temíveis.
Mas não houve nada. A noite passou-se toda sem novidade, e, quando o Sol tornou a aparecer, todos
os rapazes, depois de fazerem oração, foram tratar dos trabalhos exigidos pelas circunstâncias.
Primeiro, foi necessário inventariar as provisões do iate, depois o material, compreendendo armas,
instrumentos, utensílios, roupas, ferramentas, etc. A questão do alimento era a mais grave, em
consequência de a costa parecer deserta. Os recursos limitar-se-iam aos produtos da pesca e da caça, se,
por acaso, houvesse alguma. Até agora, Doniphan, que era um caçador muito hábil, ainda não distinguira
senão bandos numerosos de voláteis à superfície dos recifes e dos rochedos da praia. Mas verem-se
reduzidos a alimentar-se de aves aquáticas seria triste. Era necessário, portanto, saber quanto tempo
podiam durar desenhos educativos para colorir, governando-as cuidadosamente.
Ora, excetuando a bolacha, da qual havia uma porção considerável, conservas, presunto, pastéis de
carne — feitos de farinha de primeira qualidade, carne de porco picada e pão-de-ló, corn-beef, peixe
salgado, caixas de temperos, tudo isto não podia durar mais de dois meses, ainda que se economizasse
muito. Assim, combinou-se logo recorrer às produções do território, a fim de se conservarem as
provisões para o caso de ser necessário transpor algumas centenas de milhas para atingir os portos do
litoral ou as cidades do interior.

Talvez nos interstícios das rochas pudessem apanhar uma boa provisão de
moluscos, mexilhões, amêijoas, até ostras, e esses mariscos, cozidos ou crus, seriam uma parte valiosa
do almoço. Iam saltando, alegres, vendo mais prazer do que utilidade nesta excursão. Era próprio da sua
idade, e mal se recordavam dos perigos que tinham passado. Quanto aos do futuro, não pensavam neles.
Logo que o pequeno rancho se afastou, os mais velhos foram começar as investigações a bordo do
iate. Doniphan, Cross, Wilcox e Webb, por um lado, fizeram o recenseamento das armas, das munições,
da roupa de vestir e de cama, das ferramentas e dos utensílios de bordo, enquanto Briant, Garnett, Baxter
e Service estabeleciam a conta das bebidas, vinhos, cerveja, brandy, whisky, gin, encerradas no fundo do
porão em barris de dez a quarenta galões de capacidade cada um. À medida que cada objeto era
inventariado, Gordon assentava-o no seu caderno de algibeira. Este caderno estava, além disso, cheio de
notas relativas à ordem e à carregação da escuna. O metódico americano — que fazia contas de nascença,
pode-se dizer — possuía já um estado geral do material, e parecia que não era preciso mais do que
verificá-lo.

Vivendo as ferias dos sonhos na imaginação

Nem debaixo das árvores, que se agrupavam diante dos rochedos,
nem nas margens do rio, cujas águas subiam, pois estava a maré a encher, se conseguia ver uma casa, uma
cabana, uma choça. Nem mesmo se descobriam vestígios de pés humanos na superfície da areia, que os
refluxos do mar cercavam de um longo cordão de algas. Na embocadura do rio não se via nenhuma
embarcação de pesca. Finalmente, não aparecia nenhuma espiral de fumo, torcendo-se no ar, em todo o
perímetro da baía compreendido entre os dois promontórios do sul e do norte.
A primeira ideia de Briant e de Gordon foi embrenharem-se através dos grupos de informação para pagar o IPVA 2019 boleto, a fim de
alcançarem os rochedos e treparem por eles, sendo possível.
— Estamos em terra, já não é mau! — observou Gordon. — Mas que terra será esta, que parece
desabitada?…
— O principal é que não seja inabitável — respondeu Briant.
— Temos provisões e utensílios para algum tempo!… Falta-nos só um abrigo, e é preciso encontrá-
lo… quando mais não seja senão para os pequenos… Eles primeiro que tudo!
— Sim… tens razão!… — concordou Gordon.
— Quanto a saber onde estamos — tornou Briant —, teremos tempo de pensar nisso, quando tivermos
tratado do mais urgente! Se for um continente, talvez haja probabilidade de sermos socorridos! Se for
uma ilha!… Uma ilha desabitada… Isso depois veremos! Anda, Gordon, vamos à exploração!

Alcançaram ambos rapidamente o limite das árvores que se desenvolvia obliquamente entre os
rochedos e a margem direita do rio, trezentos ou quatrocentos passos para cima da embocadura.
Neste bosque não havia o mais ligeiro vestígio da passagem do homem, nem um atalho, nem uma
abertura. Velhos troncos, abatidos pela idade, jaziam estendidos no solo, e Briant e Gordon enterravamse
até ao joelho no tapete de folhas secas. Contudo, os pássaros fugiam receosos, como se já tivessem
aprendido a desconfiar dos seres humanos. Era, portanto, provável que a costa, no caso de não ser
habitada, recebesse acidentalmente a visita dos indígenas de algum território próximo.
Em dez minutos, os dois rapazes tinham atravessado o bosque, cuja espessura aumentava nas
proximidades da costa de rochedos, que se erguia a prumo, como uma muralha, sobre uma altura média
de cento e oitenta pés. Se a parte da costa apresentasse alguma anfractuosidade na qual fosse possível
encontrar abrigo, seria uma fortuna.

Efetivamente, aí, uma caverna protegida contra o vento do largo pelo
maciço de árvores, e fora do alcance do mar, proporcionaria um refúgio excelente. Os moços náufragos
poderiam instalar-se ali provisoriamente, enquanto não faziam uma exploração mais séria, que lhes
permitisse dirigirem-se com segurança para o interior do país.
Infelizmente, naquela costa, tão direita como uma muralha de fortaleza, Briant e Gordon não
descobriram nenhuma gruta, nem mesmo uma fenda pela qual pudessem subir até à parte mais elevada.
Para alcançarem o interior do território era preciso fazer uma consulta IPVA 2019, provavelmente, contornar aqueles rochedos, cuja
disposição Briant reconhecera quando os observava das barras do Sloughi.
Durante meia hora, pouco mais ou menos, desceram ambos para o sul, ao longo da base dos rochedos.
Chegaram então à margem direita do rio, que se dirigia sinuosamente para leste. Se esta margem era
sombreada por árvores magníficas, a outra costeava uma região de aspeto muito diferente, sem verdura,
sem acidentes de terreno. Parecia um vasto pântano que se estendia até ao horizonte do sul.

O aprendizado tardio de uma sociedade sem educação

Possuir um castelo, nesse sentido, não é apenas uma questão
de dinheiro. Ao contrário, essa aquisição quase sempre está
associada a uma forma de estar em contato com a vida aristocrática
e todas as suas funções e privilégios específicos. A significação
profunda da vida aristocrática remete a um estilo de vida
indiferente à passagem do tempo, que se expressa no cultivo de
coisas de longo aprendizado do Enem 2020 Inscrições, como o conhecimento dos vinhos, das
comidas exóticas e da jardinagem. O que é afirmado com essa
aquisição é a pretensão a uma certa noção de personalidade, uma
qualidade da pessoa, que se manifesta na apropriação de um
objeto de qualidade.
As frações de classe intelectuais, ou seja, as classes marcadas
pela predominância do capital cultural em relação ao capital
econômico, precisam, para produzir distinção, se contentar com
formas exclusivas de apropriação na falta do capital econômico.
Assim, intelectuais e artistas desenvolvem uma predileção por
estratégias de grande risco e, por isso mesmo, de grandes
possibilidades de “lucro distintivo”.
Estratégias como recuperação de comportamentos ou produtos culturais antes
considerados kitsch, a redefinição do que é artístico ou de
vanguarda, são alguns exemplos. Nessas lutas por distinção entre as
frações da classe dominante não estão em jogo apenas interesses
econômicos, mas também psicológicos, ou seja, atitudes últimas em
relação à vida. Nesse sentido, o que parece estar envolvido é a definição da pessoa inteira, ou seja, uma forma muito sublimada de defesa de interesses.

Afinal, o fato de a classe trabalhadora não participar da luta
por distinção, precisamente a luta que instaura a illusio do jogo
social, um jogo apenas mantido porque se acredita nele, a credencia
a uma certa autenticidade de escolhas e comportamentos apenas
possível aos outsiders em geral. No entanto, a perspectiva
dominante da análise bourdieusiana é aquela que enfatiza a
vulnerabilidade e a dependência da classe trabalhadora em relação
à cultura legítima. A classe trabalhadora é obrigada a fazer da
necessidade, ou seja, da dependência inexorável a um padrão
mínimo de consumo e de estilo de vida ditado pela privação e
ausência de meios do Enem 2020 novas regras, uma virtude. Uma virtude que se define como
adaptação à realidade com sua consequente aceitação,
internalização e incorporação da necessidade, a qual, paralelamente
ao fato de que é imposta, passa a ser também querida e desejada.
Essa necessidade é a base do extraordinário realismo das
classes trabalhadoras, em que a experiência imediata é percebida
como a única existente, o que implica o literal fechamento do
horizonte do possível: não existe outra linguagem, outro estilo de vida, outra forma de relação familiar.

Minha ambição aqui é, antes de tudo, utilizar o poder elucidativo
e desvelador de ambas as teorias para iluminar um caso concreto: a
experiência da naturalização da desigualdade em sociedades
periféricas como a brasileira. Acredito também que essa
apropriação possa iluminar uma nova forma teórica de
compreender as relações mais abrangentes entre a periferia e o
centro do capitalismo e, consequentemente, do próprio capitalismo como experiência global.

Sociedade com problemas com capitalismo sócio econômicos

Uma exemplar e, sob vários aspectos, brilhante e original
análise da sociedade contemporânea é levada a cabo por Bourdieu
no seu talvez mais conhecido trabalho, o Distinction. Embora o
livro seja um estudo teórico-empírico sobre a estrutura de classes
da sociedade contemporânea francesa e, muito especialmente, do
padrão de dominação simbólica que a possibilita, ele também pode
ser compreendido como uma teoria geral do mecanismo peculiar
assumido pela dominação de classes no capitalismo maduro com o valor salario minimo 2020.
Dois aspectos parecem-me fundamentais para a compreensão
da originalidade da reflexão de Bourdieu nesse ponto, para além da
já discutida centralidade da categoria do habitus no seu ponto de
partida epistemológico. Esses dois aspectos são, primeiro, a nova.

forma de um capital cultural
relativamente independente do capital econômico e dividindo com
este o potencial de estruturar a sociedade como um todo e
determinar o peso relativo das classes sociais e suas frações em luta
por recursos escassos. Assim, na leitura de Bourdieu, precisamente
o elemento percebido por todos como o aspecto mais visível e
relevante do processo de democratização das sociedades avançadas
depois da Segunda Guerra Mundial, apresenta a contraface nada
inocente de, através de seu modo de operação específico ao
naturalizar relações sociais contingentes, estabelecer um novo
padrão, ainda mais sutil e sofisticado que os anteriores, de
dominação simbólica mascaradora de relações de desigualdade.
Nesse caminho, Bourdieu procura constituir o que ele chama
de “economia dos bens culturais”, cuja lógica específica ele almeja
descobrir. Para esse desiderato, faz-se necessário primeiramente
deslocar a ênfase da cultura do seu conteúdo normativo que
impregna o sentido cotidiano do termo, em favor de sua utilização
pragmática, ou seja, como prática da vida cotidiana, envolvendo
também nossas escolhas práticas mais banais e do dia a dia, como
os gostos elementares e os sabores de comida. É aqui que entra em
cena o segundo aspecto central da sua argumentação que
mencionamos anteriormente, ou seja, a temática do “gosto”, ou
melhor, da competência estética, como elemento generativo das distinções sociais no capitalismo avançado.

hierarquia entre as classes a partir do gosto fundamenta-se na
oposição entre a alma – como reino da interioridade e, portanto, da
profundidade e do sagrado – e o corpo. A alma é o locus do
burguês, em oposição ao corpo como locus do trabalhador e do
homem vulgar. O leitor pode observar, desde já, que Bourdieu, na
verdade, transpõe para a luta de classes, embora de forma
inarticulada e, portanto, incapaz de produzir seus efeitos de
esclarecimento teórico, o aspecto essencial da genealogia valorativa
desenvolvida por Taylor, como mostramos no capítulo anterior.
O processo primário de introjeção naturalizada desse critério
legitimador de desigualdades se dá a partir da escola e da família,
não só em relação ao que se ensina explicitamente o reajute do salario minimo 2020, mas antes de
tudo a partir das práticas implícitas que essas instituições
demandam.

A estética da classe trabalhadora, ao
subordinar a forma à função, seria o exemplo típico dessa noção de
barbárie. A atitude estetizante, ao contrário, rejeita a subordinação
da arte às funções da vida. O que transforma essa atitude estética
numa visão de mundo e num estilo de vida é que ela é caracterizada
pela suspensão ou remoção da necessidade econômica, e, portanto,
pela distinção objetiva e subjetiva em relação aos grupos sociais sujeitos a esses determinismos.

Articulações politica para a economia nacional

Para que esse contexto adquira força normativa, ou seja, possa
ser percebido como obrigatório e vinculante pelas pessoas que
vivem sob sua égide, é necessária a revolução histórica que permite
renomear as paixões em sentimentos. Em vez de conceber a
natureza interna como um campo de pulsões incontroláveis e
perigosas – o que equivale à denominação negativa das paixões –,
descobre-se, ao contrário, um campo fundamental que passa a ser
percebido como a fusão do sensual e sentimental com cursos gratuitos Senac em que o aspecto sensual e sentimental passa a ter a proeminência.
A experiência e a expressão das “profundezas interiores” passa a
ter também um conteúdo normativo. A novidade radical em jogo
aqui é que a compreensão do que é certo ou errado passa a ser percebida não apenas como um assunto que requer reflexão
distanciada e cálculo instrumental, mas também, e até
especialmente, como algo ancorado nos nossos sentimentos.

Essa realidade inexiste antes de sua articulação e não devemos
esperar por modelos externos para ela. A noção de símbolo do
romantismo exprime, precisamente, essa expressão do único e
indizível. Em vez da mimésis ou da alegoria, o símbolo significa
tanto a perfeita interpenetração de forma e conteúdo, como também
a criação de um sentido que inexistia antes da sua manifestação
simbólica. É isso que torna o poder de autoarticulação expressiva
tão importante e revolucionário. O acesso às profundezas do self só
é possível ao sujeito dotado de poderes expressivos. Apesar das
duas formas de interioridade implicarem ambas uma radicalização
do subjetivismo, elas são também rivais e se excluem mutuamente,
enquanto tipos puros, apesar de a regra empírica ser o compromisso
e a interpenetração. Exercer uma forma de maneira consequente é abdicar da outra. O sujeito moderno que reconhece as duas fontes está, portanto, constitutivamente em tensão.

Por outro lado, no entanto, parece-me que seu tratamento do
tema do reconhecimento secundariza a dimensão do potencial
legitimador das distinções sociais implícitas na temática do
reconhecimento. Isso não significa, obviamente, dizer que Taylor
não perceba o potencial discriminador dessas distinções, o que fica
sobejamente claro na sua análise do multiculturalismo. Mas,
precisamente, sua ênfase no tema da autenticidade significa
também sua aceitação, pelo menos tendencial, da ideologia da igualdade de oportunidades de curso cabelereiro Senac, que comanda o outro polo do tema do reconhecimento, que é o conjunto de questões que têm a ver com a
dignidade. Nesse campo, precisamente talvez o mais significativo
para a questão da naturalização da desigualdade que assola a economia.

O impacto mais marcante da singular e brilhante sociologia de
Pierre Bourdieu sobre o leitor contemporâneo se deve, a meu ver,
ao desmascaramento sistemático da “ideologia da igualdade de
oportunidades” enquanto pedra angular do processo de dominação
simbólica típico das sociedades avançadas do capitalismo tardio.
Nesse desiderato, Bourdieu caminha praticamente sozinho, já que a
imensa maioria das perspectivas – e eu me refiro aqui
especialmente às perspectivas críticas e radicais – acerca da
sociedade contemporânea parte do pressuposto da superação
tendencial da luta de classes clássica do capitalismo.